quinta-feira, 8 de abril de 2010

ASSIM FOMOS NÓS NESSA NOITE


Será outra vez o sol quando amanheça.
Será a luz intensa e amorosa.
E será na romantizada plenitude
que a ficção fecundará a nossa história.

É que uma noite te encontrei num abraço,
e teu cabelo se enredou por meus dedos...

Porém tudo foi tão brevemente
como chuva caindo nos desertos,
da tristeza sem céu localizada
na desolada aridez de nossos portos.

É que sempre me parece que te achegas
ainda que no fundo saiba que vais indo.

E nessa noite de tramas e mimesis,
tua mão aqueceu a minha mão,
como o sol às gélidas montanhas,
nas ladeiras de parodias e idioletos...
numa dança lírica de homérico argumento,
pela fantasia narrativa do real e imaginário,
na trágica amalgama de razão e sentimento.

Nós, oscilando nos significados e significantes
das românticas intrigas dos relatos e do tempo.

E a teu lado eu pensei na primavera...
uma primavera fugaz que cabia toda
nas partes mais bonitas de teu corpo.

E eu soube que o amor ainda perdura
no cálido ventre de teu horto;
e no torrencial caudal do desejo
que juntos navegamos mar adentro.

Pois é no limite do vale e o deserto
que a vida germina com ternura,
e se agarra a sementes passageiras,
na vital fronteira de um encontro.

Assim fomos nós nessa noite:
num fértil e artístico contraste,
fomos água e areia simultânea
nas orlas difusas do silêncio.

E depois te perdeste no nada...
nos palácios adjacentes à memória;
nos jardins sem luz da lembrança;
nas avenidas intermináveis do que falta;
e na amarga estrada que termina
na desconsolada saudade de teu corpo;
e na poesia sensual de tua mirada
que repentinamente chega com o vento.

E essa noite voltará inflexivelmente:
porque ainda que ela já não exista,
como passado sempre está presente...
e continuamente poderia ir melhorando,
já que é bom ou ruim o acontecido,
dependendo de como eu te pense.

E há uma parte de mim que ainda te toca,
como o deserto aos rios e vai vivendo...

E nessa hora em que nos aproximamos...
e meus olhos atingiram tua beleza,
eu senti que não é a duração
que faz a primavera,
pois há primaveras breves e essenciais
que cintilam nos orvalhos do inverno...

E não posso distinguir se está chovendo
ou é o sol que te alumia docemente.

Cronicamente Daniela em Poemas de"Jorge Luis Gutiérrez"

segunda-feira, 5 de abril de 2010

As coisas que possuo

"Possuo um cemitério meu, pessoal, eu o construí e o inaugurei há alguns anos quando a vida me amadureceu o sentimento. Nele enterro aqueles que matei,ou seja,aqueles que para mim deixaram de existir,morreram:
Os que um dia tiveram minha estima e a perderam. Quando um tipo vai além de todas as medidas e de fato me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum do meu cemitério - nele não existem jazigos de família, túmulos individuais, os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrarice, do mau-caráter. Para mim o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar. Raros enterro-ainda bem!De um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita, arrogante-a impostura e a presunção me ofendem. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida.
Encontro na rua um desses fantasmas, paro a conversar,escuto,correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas. Sigo adiante, o tipo mais uma vez pensa que me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado.”

Cronicamente Daniela Por Jorge Amado

domingo, 4 de abril de 2010

O Tombo!

O Tombo!

A mazela do tombo pode ser previsível?
Sinceramente, não conheço ninguém que não se levantou após. Mesmo temeroso por tombar outra vez, mesmo sem chão, quando se é pego de surpresa por ele. Ávido de esperança cada qual, tenta não se esvair da queda, mesmo que ralado, fresco em hematomas e roxo de vergonha.
Sabido é aquele que prepara seu terreno esperando, a tal fatalidade. Mórbida surpresa para um corpo vil, que luta todo tempo contra esta desagradável sensação ante-gravitacional, que torna o ser impotente às margens da invalides. Golpeia se a resistência com brutalidade, curando as dores com láudano fresco.
Fazendo assim, um novo levantar e um caminhar seguro. Temido de que um simples tombo pode causar sérios danos, rasgando panos, quebrando ossos podendo até levar-te ao óbito. Mas continuamos firmes na cadência do caminhar, um passo a frente e olhos atentos trazem a solidez de não tombar outra vez. E continuamos observando para não tropeçar, nos próprios pés, evitando assim uma cena póstuma de humor. Daquelas das quais ou caímos de rir de nos mesmos ou ouvimos o gargalhar alheio.
Digo e repito, conseguimos essa proeza com um respeito inigualável com uma autarquia singular digamos até invejável.
Tombar em movimento, tombar parado, a causa da dor, do choro, do riso.
E continuamos no vagar da vida, com ou sem quedas, viver sem cair é dar um insolente parecer a ti e ao próximo. Especulando os momentos de ira e os momentos de total alegria, passos ouvidos a uma sonora voltagem incalculável de decibéis, enquanto estivermos vivos após um simples ou duro TOMBO!

Por Daniela Palermo! Em Cronicamente
Daniela