segunda-feira, 5 de abril de 2010

As coisas que possuo

"Possuo um cemitério meu, pessoal, eu o construí e o inaugurei há alguns anos quando a vida me amadureceu o sentimento. Nele enterro aqueles que matei,ou seja,aqueles que para mim deixaram de existir,morreram:
Os que um dia tiveram minha estima e a perderam. Quando um tipo vai além de todas as medidas e de fato me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum do meu cemitério - nele não existem jazigos de família, túmulos individuais, os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrarice, do mau-caráter. Para mim o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar. Raros enterro-ainda bem!De um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita, arrogante-a impostura e a presunção me ofendem. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida.
Encontro na rua um desses fantasmas, paro a conversar,escuto,correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas. Sigo adiante, o tipo mais uma vez pensa que me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado.”

Cronicamente Daniela Por Jorge Amado

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